Na Crushpad, uma vinícola da Califórnia, os clientes fazem o próprio vinho — decidem que uvas usar, o tempo de fermentação e até o design do rótulo.

fazendo o próprio vinho

Em 2002, o americano Michael Brill derrubou todas as árvores que tinha em sua casa em São Francisco, na Califórnia, e plantou 24 parreiras de pinot noir. No ano seguinte, sem nenhuma experiência prévia, chamou alguns amigos para produzir vinho em sua garagem. “As pessoas paravam na frente da minha casa e perguntavam o que eu estava fazendo e, quando eu respondia, pediam para ajudar”, diz Brill. “Em alguns meses, já tinha mais de 100 pessoas em minha lis­ta de voluntários.”

Foi justamente nessa época que Brill se deu conta de que havia ali um mercado a ser explorado, o de amantes de vinho dispostos a produzir a própria bebida. Brill largou sua posição de vice-presidente de marketing de uma companhia de software no Vale do Silício e, em 2004, fundou a Crushpad, uma empresa que permite a qualquer pessoa se tornar vinicultor, escolhendo desde a mistura de uvas até o design do rótulo na garrafa.

Informalmente, vinícolas americanas sempre permitiram que curiosos participassem de alguma etapa do processo de produção de vinho. A inovação da Crushpad foi radicalizar essa prática. Nos últimos seis anos, mais de 5 000 clientes tiveram a experiência de brindar com o próprio vinho — oportunidade até agora inexistente nas vinícolas brasileiras.

No início, caminhões cheios de uva descarregavam em frente à sua sede. Em 2008, a Crushpad passou a produzir também na tradicionalíssima região de Bordeaux, na França, numa parceria com o empreendedor britânico Jonathan Maltus, dono do Châ­teau Teyssier, na região de St. Emilion. Recentemente, Brill precisou mudar a sede da empresa para um espaço maior, a 40 minutos de São Francisco, no Napa Valley. Agora, planta uvas chardonnay e merlot num terreno de 100 000 metros quadrados. Ainda assim, continua oferecendo a possibilidade de os clientes fazerem suas escolhas numa lista que inclui mais de 50 fornecedores nos Estados Unidos e na França.

O perfil do cliente é de homens entre 35 e 55 anos, normalmente executivos dispostos a gastar pelo menos 8 000 dólares. Esse é o valor mínimo exigido na produção de um barril de 225 litros, o que dá uma média de 27 dólares por cada uma das 300 garrafas de 750 mililitros. Os que se decidem pelas uvas mais caras acabam deixando 10 000 dólares com a Crushpad. Muitos clientes tentam recuperar parte do dinheiro com a venda dos vinhos que produzem.

É o que faz o americano Michael Giarraputo, dono de uma pequena empresa de marketing e criador dos vinhos Think Tank. Além de degustar seu tinto pinot noir e seu branco syrah, Giarraputo vende suas criações em um site na internet, montado com a ajuda da vinícola. A Crushpad dá palestras sobre todos os aspectos da produção da bebida em sua sede, mas Giarraputo optou por aprender sobre teor alcoólico, acidez e enzimas de fermentação com os vídeos da empresa na internet. A partir daí, ele foi à Califórnia colocar a mão na massa. Quem não tem a mesma disposição pode simplesmente disparar as ordens pela internet, com a escolha das uvas, do tipo de fermentação e do rótulo, e receber as garrafas em casa.

Giarraputo estava em São Francisco em 2007 quando as uvas que tinha encomendado chegaram e pôde fazer a separação dos melhores frutos na esteira e a escolha de como queria a maceração (o processo de esmagamento, feito não com os pés, mas em máquinas específicas). “O processo é longo, dá muito trabalho e por vezes nos deixa angustiados, querendo que o vinho fique pronto de uma vez.

Mas logo você descobre que o divertido é separar os galhinhos das uvas, provar o mosto e discutir com os outros clientes”, diz Giarraputo, que de­pois de um ano e meio já estava com o próprio vinho sobre a mesa de seu apartamento. Em 2009, ele decidiu repetir a dose e produziu mais um barril.

Além da Crushpad, há duas opções para os aspirantes a vinicultor, ambas em Nova York. Uma delas nasceu de um ex-funcionário da Crushpad, Conor McCormarck, que no início de 2010 fundou a Brooklin Winery. O modelo de negócios é o mesmo: os interessados podem assistir às palestras e tomar as decisões via internet ou na sede da empresa.

O que muda é o tamanho: a vinícola ocupa uma área de 650 metros quadrados. O preço do barril também é menor: 5 700 dólares. A outra vinícola da cidade é a City Winery. Lá é comum ver funcionários de escritórios de advocacia em atividades patrocinadas por suas empresas como parte de um trabalho de integração. Para a Crushpad vão os clientes mais ambiciosos, que, como Giarraputo, tentam transformar o hobby em negócio. Dezessete deles chegaram a receber notas superiores a 90 de Robert Parker, o papa quando o assunto é degustação de vinhos. Esses, sem dúvida, merecem um brinde.

(Fonte: Exame)

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